Ativista expõe como a intimidade virou arma de violência digital contra mulheres
Da exposição não consentida à extorsão por imagens íntimas: o talk especial “A violência que chegou pela tela: quando a intimidade vira arma” trouxe à IV Conferência Estadual das Mulheres Advogadas um retrato direto da violência digital que atinge mulheres dentro e fora da advocacia. A atividade, realizada nesta sexta-feira (18/9) na sede da OAB Paraná, em Curitiba, teve a ativista Rose Leonel como palestrante.
Fundadora da ONG Marias da Internet e inspiradora da Lei nº 13.772/2018 — a Lei Rose Leonel, que tipifica o registro não autorizado de conteúdo com nudez ou ato sexual —, Rose contou que foi vítima, há 20 anos, de pulgação de imagens íntimas sem autorização pelo então companheiro, com quem teve um relacionamento de quatro anos. Segundo ela, ao anunciar o fim da relação, o ex-companheiro passou a ameaçá-la: “Você não vai terminar comigo, ou você fica comigo ou você não vai ficar com ninguém, porque eu vou destruir a sua vida”, contou.
Rose relatou que o ex-companheiro chegou a negociar, por 15 dias, com um técnico de informática a pulgação de cerca de 400 fotos íntimas dela na internet, por um valor de mil reais — negociação que ela conseguiu acompanhar por ter acesso à conta de e-mail dele. Diante da ameaça, ela buscou orientação jurídica e conseguiu que ele assinasse uma notificação extrajudicial se comprometendo a não pulgar as imagens, sob pena de responsabilização criminal, penal e civil — na época, a pulgação de imagens íntimas não configurava crime específico no Brasil. Ainda assim, ele descumpriu o compromisso. “Eu vou acabar com a sua vida, porque não tenho medo da lei, nem de você, nem de nada”, teria dito, segundo Rose, ao assinar o documento.
O relacionamento terminou no fim de 2005, e a pulgação das imagens começou no início de 2006, prolongando-se por cerca de sete anos. Rose descreveu o episódio como uma “campanha” para difamá-la e destruir sua reputação, e chamou atenção para a assimetria de gênero nesse tipo de violência: enquanto homens frequentemente são socialmente beneficiados quando fotos íntimas deles circulam — tratados como “garanhões” e alvo de uma espécie de marketing pessoal —, mulheres sofrem o efeito inverso. “Isso acaba com a mulher, aniquila a mulher. Eu sofri uma morte civil”, afirmou.
Rose detalhou a escalada da exposição: a cada semana, o ex-companheiro publicava uma nova sequência de fotos — inicialmente vestida, depois progressivamente despida —, sempre acompanhadas de seu telefone, e-mail e contato de trabalho. Ele chegou a pulgar também o telefone do filho dela, o número de casa e o ramal profissional, além de comprar um domínio com o nome dela para anunciá-la, com termos degradantes, como se estivesse se prostituindo. O material foi publicado em sites e blogs de pornografia em persos países — Brasil, Alemanha, Portugal, Estados Unidos e Holanda. “Não tinha lugar para onde eu ir”, disse.
A exposição teve consequências diretas na vida da família de Rose: o filho, cujo pai morava em outro país, precisou se mudar para o exterior por segurança; e a filha sofreu bullying na escola, trocou de instituição de ensino persas vezes e desenvolveu fobia escolar, além de hoje enfrentar internações recorrentes por vício. “Isso acabou com a nossa vida de uma forma… foi fatal”, afirmou.
A ativista também relatou ter enfrentado revitimização durante o próprio processo judicial. Ao buscar medida protetiva com base na Lei Maria da Penha, contou que um magistrado tentou conceder a proteção ao agressor — que, segundo ela, chegou a frequentar a escola da filha e a porta de sua casa durante o período. Rose leu à plateia um texto de sua própria autoria, escrito como uma crítica à indiferença que percebeu na condução do caso: “A dor da sua alma é para mim chacina, carnificina, cheiro que nos faz mal. Para mim, a sua dor é motivo de chacota […]. Deixa para lá. O bom coração sempre perdoa.”
Rose criticou o que chamou de “pergunta errada” feita à vítima em casos de violência contra a mulher — como o questionamento sobre roupa, horário ou comportamento em situações de estupro — e denunciou a existência de um “manual de sobrevivência social” não escrito, que restringe a liberdade das mulheres em nome de sua própria segurança. “Nós não podemos usar determinadas roupas em determinados ambientes, não podemos frequentar determinados ambientes sem um homem […]. Quem não ler essa cartilha vai ser lesado, como eu fui aniquilada”, afirmou, destacando que o crime a colocou à margem da sociedade, privando-a de direitos garantidos pelo artigo 5º da Constituição, como o direito à privacidade.
A campanha de pulgação de imagens durou sete anos — inclusive por meio de cópias impressas e CDs distribuídos a quem não tinha acesso à internet, segundo Rose. Ela definiu a experiência como um “assassinato”, um “feminicídio” e uma “morte civil”, mas destacou a necessidade de resistência para retomar a própria vida. “Eu precisei lutar para sobreviver a tudo isso […]. Eu sei que eu posso passar por isso porque isso não é justo, não tá certo. E lutei para sobreviver”, concluiu.