OAB Paraná lança Incubadora de Escritórios de Advocacia
A OAB Paraná lançou nesta terça-feira (11/8), Dia do Advogado, a Incubadora de Escritórios de Advocacia, programa inédito desenvolvido em parceria com o Sebrae/PR para impulsionar a gestão, a inovação e o crescimento sustentável dos negócios jurídicos no estado. O lançamento foi marcado por uma aula magna que reuniu dois nomes de referência na discussão sobre gestão jurídica no país.
Intitulada “Gestão de Escritórios – Crescimento Sustentável e Disruptivo“, a aula magna teve a participação de Carlos Motta, fundador do primeiro escritório full stack de inteligência artificial do país, e de Luiz Fernando Casagrande Pereira, presidente da OAB Paraná. A mediação do painel coube a Eduardo Lincoln, presidente da Comissão de Inteligência Artificial da OAB Paraná. A cerimônia de abertura contou ainda com as presenças de Maíra Fonseca, diretora da Escola Superior de Advocacia da OAB Paraná, Fernanda Valério, diretora da Jovem Advocacia da OAB Paraná, e César Reinaldo Rissete, diretor do Sebrae Paraná.
Maíra Fonseca destacou o caráter histórico da iniciativa, que chega à sua primeira edição no formato atual após versões anteriores do projeto. “Vocês que estão aqui hoje estão fazendo parte, então, do momento que é histórico para a OAB do Paraná”, afirmou. Segundo ela, a incubadora já soma 3.200 advogados cadastrados e permanece aberta a novas inscrições ao longo da jornada.
O programa se estrutura em oito etapas ao longo dos próximos seis meses. Após a conferência de abertura, tem início a trilha técnica desenvolvida com o Sebrae/PR, com dez webinars semanais, às quartas-feiras, entre agosto e outubro, em temas como gestão, inovação, marketing jurídico ético, tecnologia e planejamento estratégico. Em seguida, a programação segue com bootcamps presenciais em nove polos regionais do estado, dedicados à consolidação prática dos conteúdos e à troca de experiências entre os participantes. Na sequência, ocorrem duas masterclasses, uma de planejamento estratégico e outra de pitch de vendas, esta última voltada a preparar os advogados para apresentar seus escritórios ao mercado dentro dos limites éticos da advocacia.
Quem viver essa jornada junto com a gente vai chegar ao final dela com o escritório operando de maneira muito mais linda, muito mais fluida, muito mais fortalecida
Até a quinta etapa, a participação na incubadora é inpidual, podendo incluir sócios do escritório. A partir da sexta etapa, a Rodada de Pitches, a inscrição passa a ser feita pelo escritório como pessoa jurídica. Nessa fase, os projetos são avaliados por bancas online, em apresentações de três minutos sobre o produto, o escritório e o planejamento de negócio de cada banca. Os critérios de avaliação estão disponíveis no regulamento da incubadora, publicado no site do programa.
Os melhores pitches avançam para a submissão do projeto de planejamento estratégico, etapa final avaliada pela banca avaliadora. Os cinco projetos mais bem colocados recebem premiação em dinheiro de até R$ 10 mil, enquanto os demais selecionados passam a contar com mentoria especializada, que se estende ao longo do primeiro semestre de 2027, promovendo encontros entre as áreas dos projetos vencedores e advogados de referência nas respectivas especialidades.
“É a OAB Paraná participando da gestão do seu escritório, dia após dia, com a certeza de que quem viver essa jornada junto com a gente vai chegar ao final dela com o escritório operando de maneira muito mais linda, muito mais fluida, muito mais fortalecida”, resumiu Maíra Fonseca.
A diretora da Jovem Advocacia, Fernanda Valério, chamou atenção para a exigência de constituição de pessoa jurídica até a sexta etapa do programa e destacou o incentivo voltado especialmente aos advogados no início de carreira. “Por incrível que pareça, nós tivemos nesse projeto colegas mais experientes”, afirmou, ao observar que a resiliência e a capacidade de adaptação a um mercado competitivo têm mobilizado profissionais de diferentes momentos de carreira. Ela lembrou ainda que o jovem advogado não paga a taxa de constituição de sociedade de advogados até o quinto ano de inscrição na OAB Paraná.
Diretor do Sebrae Paraná, César Reinaldo Rissete destacou o ineditismo da iniciativa no cenário nacional. “A gente percebe o quanto que a OAB Paraná é um destaque nacional e essa iniciativa que a gente vê aqui é uma iniciativa que eu não tenho conhecimento, que outros estados têm”, disse. Rissete afirmou que o programa representa uma atualização necessária na gestão dos escritórios de advocacia e reforçou o compromisso do Sebrae em contribuir com ferramentas e tecnologias voltadas à profissionalização e à competitividade das bancas.
Gestão e atendimento
Luiz Fernando Pereira compartilhou na aula magna a trajetória de gestão do próprio escritório, fundado ao lado do sócio Fernando Vernalha há 25 anos sem nenhum contato prévio com temas de gestão jurídica. Foi apenas nove anos depois do início das atividades do escritório, ao participar de uma feira em Porto Alegre, que teve o primeiro acesso a conteúdos como precificação de honorários e controladoria. A partir de um cálculo simples de custo por hora, descobriu que 30% da carteira de clientes do escritório dava prejuízo, o que o levou a renegociar contratos e reestruturar a gestão financeira da banca.
Pereira defendeu que o crescimento sustentável de um escritório depende menos de marketing e presença digital do que da capacidade de entusiasmar os clientes já atendidos. Citou pesquisa interna segundo a qual cerca de 85% dos novos clientes chegam por indicação, sempre de quem avalia o atendimento com notas máximas, independentemente do porte do caso. “Não importa quem vocês estejam atendendo, todos têm que ter o compromisso de entusiasmar esse cliente”, afirmou, ao relacionar esse compromisso à obrigação ética do advogado com quem lhe confia uma procuração. Para ele, o fator decisivo é a disponibilidade: o escritório adota o retorno rápido de mensagens e o cumprimento de prazos pela metade do tempo estipulado como práticas de fidelização.
“O que mais importa na advocacia é o cliente, e o cliente percebe quando você se importa com ele”
O presidente da OAB Paraná encerrou a fala afirmando que o atendimento é insumo tão essencial quanto o conhecimento jurídico. “O que mais importa na advocacia é o cliente, e o cliente percebe quando você se importa com ele”, disse, ao relacionar o entusiasmo do cliente à geração de novas indicações.
Ao retomar a palavra, Eduardo Lincoln sintetizou os principais pontos da fala de Pereira em cinco eixos: a consciência do advogado como prestador de serviço, a importância do atendimento, a precificação como ferramenta de gestão, o rastreamento da origem de novos clientes e a pesquisa de satisfação ao final do ano. Para ele, o cruzamento desses dois últimos dados permite identificar clientes ainda não entusiasmados e direcionar esforços para conquistá-los, citando como exemplo prático a entrega de um trabalho antes do prazo combinado.
Cultura da IA
Encerrando o painel, Carlos Motta, sócio fundador de um escritório estruturado inteiramente em torno da inteligência artificial, defendeu que o principal obstáculo à adoção da tecnologia na advocacia não é técnico, mas cultural. Para ele, a resistência está ligada à forma como o profissional ainda enxerga a ferramenta. “A inteligência artificial, no fundo, ela não pode ser considerada como um software, uma ferramenta, mas sim como um par, muito potente, se você souber configurar”, afirmou, ao completar que prefere não chamá-la de software ou ferramenta, mas de “um outro ser”.
Motta também observou que a transformação não afeta apenas o exercício da advocacia, mas o próprio perfil dos clientes, que hoje chegam aos escritórios com teses já elaboradas com apoio de sistemas de inteligência artificial. Com mais de 30 anos de atuação em escritórios globais — foi sócio do Machado Meyer e, posteriormente, o primeiro sócio contratado da associação entre o escritório TozziniFreire e o Mayer Brown no Brasil —, disse hoje se ver como uma “startup” ao empreender um escritório construído do zero com inteligência artificial.
Ao comentar a fala anterior de Pereira sobre atendimento ao cliente, Motta reforçou que a prática de responder rapidamente a mensagens e e-mails, mesmo sem solução imediata, é regra básica adotada por escritórios bem-sucedidos. Para ele, o entusiasmo do cliente nasce da percepção de que o advogado atua como sócio de seu negócio. “A gente vive para os clientes, e você tem que se sentir sócio do cliente antes de ser sócio da sua sócia, do seu sócio”, disse, ao alertar que a demora no atendimento é hoje o principal risco de perda de clientes para a concorrência.
“A inteligência artificial […] não pode ser considerada como um software, uma ferramenta, mas sim como um par, muito potente, se você souber configurar”
O advogado detalhou ainda a estrutura do escritório que fundou após deixar o Mayer Brown, onde atuou por 16 anos. Ele afirmou ter recorrido à inteligência artificial em praticamente todas as etapas de criação da banca, da identidade visual à redação do site, incluindo a versão em inglês. Segundo relatou, uma plataforma de gestão foi utilizada para estruturar toda a área administrativa do escritório, incluindo controle de horas, CRM e faturamento, a um custo reduzido. Motta também afirmou ter utilizado um assistente de inteligência artificial para auxiliar na elaboração do contrato social da empresa, que, segundo disse, foi registrado na OAB e menciona expressamente o uso de inteligência artificial nas atividades do escritório.
Carlos Motta defendeu ainda que a função tradicionalmente exercida por advogados juniores tende a ser substituída por um perfil que classificou como “engenheiro legal”, responsável por configurar e operar sistemas de inteligência artificial no dia a dia do escritório. Segundo ele, esses profissionais aprendem mais rapidamente ao revisar documentos já produzidos por sistemas configurados corretamente do que por meio do estudo tradicional. O advogado fez ainda uma ressalva técnica sobre a diferença entre assistentes e agentes de inteligência artificial, recomendando cautela na adoção de sistemas autônomos, que, segundo ele, consomem mais recursos computacionais sem necessariamente agregar benefício proporcional às rotinas de um escritório de advocacia.
Motta encerrou a apresentação destacando ganhos de eficiência obtidos com o uso da inteligência artificial na rotina administrativa e financeira do escritório, como faturas simplificadas e sistemas automáticos de cobrança, que resultaram, segundo ele, na ausência de atrasos de pagamento em cinco meses de operação. Reforçou que o principal desafio na adoção da tecnologia continua sendo cultural, e não técnico, e defendeu que a inteligência artificial amplia a capacidade de competição de escritórios pequenos e recém-criados frente a bancas de grande porte. “É a primeira vez que a gente tem chance, quem é novo tem chance, de se destacar muito mais rápido do que esperar dez anos”, afirmou, ao concluir sua participação na aula magna.
A Incubadora de Escritórios de Advocacia é aberta a advogados em diferentes estágios de carreira, da advocacia jovem que está montando o primeiro escritório à advocacia sênior que busca aprimorar a gestão de uma banca já consolidada. Saiba mais em incubadora.oabpr.org.br