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Painel de encerramento cobra espaço de voz para mulheres em ambientes hostis à participação feminina

Gabriela Rollemberg Flavia Cid Fechando o ciclo de painéis da IV Conferência Estadual das Mulheres Advogadas, o Painel 11, “Como ter voz em espaços desafiadores“, discutiu nesta sexta-feira (18/9), na sede da OAB Paraná, em Curitiba, as barreiras que ainda silenciam mulheres em ambientes tradicionalmente dominados por homens — do agronegócio à política. A conversa reuniu Flavia Cid, produtora rural eleita Mulher do Agro 2025, e Gabriela Rollemberg, advogada e cientista política, com mediação de Thays Beleze. Gabriela Rollemberg trouxe ao painel um caso concreto de violência política de gênero que atuou recentemente: a confirmação, pelo TSE, da maior condenação da história do tribunal nesse tipo de violência. O caso envolveu uma vereadora negra do município baiano de Camaçari, hostilizada de forma recorrente por um colega de casa legislativa, que chegou a arremessar ao chão a placa que identificava o assento dela, sentar-se ao seu lado sem consentimento, tocá-la e dirigir a ela um comentário racista. O agressor foi condenado tanto por violência política de gênero quanto por importunação sexual, e o caso resultou na aplicação inédita da agravante da Lei Maria da Penha à lei de violência política de gênero, a partir de decisão do STF. “É um caso histórico e emblemático, que mostra que a gente está avançando”, afirmou Gabriela — ainda que, segundo ela, o comportamento observado entre ministros do próprio Supremo já sinalize o nível de desafio enfrentado dentro do Congresso Nacional. Laboratório de inovação política Gabriela Rollemberg dedicou parte de sua fala a apresentar a Quero Você Eleita, laboratório de inovação política que fundou em 2020, após anos atuando institucionalmente pela implementação de ações afirmativas para mulheres na política — incluindo as cotas obrigatórias de candidaturas e de financiamento de campanha, medidas que, segundo ela, não produziram sozinhas o resultado esperado. A iniciativa mantém hoje uma comunidade gratuita com mais de 400 pessoas pelo Brasil, já apoiou mais de 21 mulheres eleitas e acompanha atualmente 50 candidatas. “Os partidos convidam as mulheres para se filiarem, prometem mundos e fundos, mas na hora da eleição elas são completamente abandonadas, elas não são apoiadas pelos seus próprios partidos, elas não recebem os recursos. […] Os partidos só querem mulheres candidatas, eles não querem mulheres eleitas. E as mulheres não querem só ser candidatas, elas querem ser eleitas”, disse. Gabriela classificou essa dinâmica como uma violência recorrente cometida pelos partidos contra candidatas mulheres, que se repete e se agrava a cada eleição. Segundo Gabriela, mulheres tendem a fazer uma política diferente, mais dialogada e coletiva, responsável por colocar em pauta nacional temas como violência política de gênero, economia do cuidado e dignidade menstrual — historicamente ausentes do debate público antes da presença mais significativa de mulheres na política. Ela também citou dados para reforçar a urgência dessa mudança: o Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade e depressão e ocupa a segunda posição em burnout — em ambos os casos, com mulheres como principais vítimas —, além de figurar entre os primeiros lugares do mundo em gravidez na adolescência, casamento infantil, violência contra a mulher e feminicídio. “Se a gente continuar elegendo as mesmas pessoas, os mesmos homens, os mesmos governadores, os mesmos prefeitos, a gente vai chegar no mesmo lugar”, afirmou. Gabriela defendeu que mulheres — mais da metade do eleitorado brasileiro — precisam se mobilizar de forma mais ativa em torno do próprio poder de voto. “A gente tem um voto na nossa mão, a gente é mais da metade da população. […] A caneta tá na nossa mão e o dinheiro tá na nossa mão. Em quem que a gente vai votar?”, questionou, cobrando que o tema seja mais discutido no cotidiano, inclusive entre amigas. Enfrentando o próprio medo em ambiente masculino Flavia Cid contou que sua trajetória no agronegócio começou por acidente. Formada em Direito — vem de uma família de juristas, incluindo um avô que lecionava Comércio Exterior na USP —, ela havia se afastado da advocacia para cuidar de parentes doentes e dos filhos quando o marido, à frente da fazenda de pecuária da família, pediu ajuda para implantar uma atividade nova: uma lavoura de plantas aromáticas e medicinais, destinada à produção de óleos essenciais. “Eu não sabia absolutamente nada, mas eu vou ajudar no que posso”, lembrou. O que começou como uma colaboração pontual se tornou paixão, e ela passou a se envolver progressivamente na administração da fazenda, aprendendo sobre gestão e implantando certificação orgânica em três meses — processo que, segundo ela, costuma levar de um a dois anos em outras propriedades. “Eu tenho um lema: você só pode falar que não dá se você tentar”, afirmou. A trajetória a levou a expandir o negócio para uma indústria de extratos vegetais e a conquistar reconhecimento no setor: hoje é embaixadora do Globo Rural em Sustentabilidade, foi eleita Mulher do Agro em 2025 e atua à frente de projetos de agricultura regenerativa, além de ter participado de eventos ao lado de ex-presidentes e ministros da Agricultura em defesa do setor. “Se eu estou aqui, é possível para você qualquer coisa”, disse, ao relatar a trajetória. Ao tratar dos desafios de atuar num setor tradicionalmente masculino — do trabalhador rural às autoridades do agronegócio —, Flavia identificou a si mesma como o maior obstáculo que encontrou. “A síndrome do impostor que a gente tanto fala é real. A gente é o primeiro empecilho”, afirmou, relatando o medo inicial de estar cercada de homens que, em sua percepção, “sabiam mais”. Contou ainda um episódio em que foi a única mulher convidada para um almoço de networking empresarial, e o organizador do evento comentou que outras mulheres convidadas anteriormente sempre perguntavam se haveria outra mulher presente antes de aceitar o convite. Para Flavia, esse tipo de insegurança é um erro a ser superado: “Não tenha medo de estar no meio de homens.” Ela também criticou o que considera uma tendência de mulheres se “masculinizarem” para serem ouvidas em ambientes de maioria masculina — falando mais alto ou adotando postura mais agressiva. “Nós temos que ser quem nós somos. Femininas, com jeitinho. […] Nós caímos no erro de querer ser um papel que não é nosso”, disse, defendendo que o ideal não é a criação de espaços exclusivamente femininos, mas a soma de forças entre homens e mulheres, cada um com suas características. “Não virar o clube das luluzinhas das advogadas. […] Se isso acontecer um dia na prática, em todas as áreas e setores, que potência, que mudança haverá na sociedade”, afirmou. Encerrou destacando a relevância do agronegócio brasileiro — “o país mais sustentável do mundo”, segundo ela — e defendendo que mulheres tenham coragem de ocupar espaços que tradicionalmente não foram destinados a elas: “Seja quem você é. Tenha coragem.”
18/09/2026 (00:00)
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